Mieloma Múltiplo
Compreenda melhor o mieloma múltiplo
Para que você possa entender melhor o que é o mieloma múltiplo, descrevemos a seguir alguns termos e conceitos importantes relacionados à doença:
A medula óssea
A medula óssea é um tecido gelatinoso que ocupa o interior dos ossos. Na medula óssea são produzidos os componentes do sangue: as hemácias (glóbulos vermelhos), os leucócitos (glóbulos brancos) e as plaquetas. As hemácias são as células encarregadas de transportar o oxigênio dos pulmões até as células de todo o organismo e o gás carbônico das células para os pulmões para ser eliminado com a respiração. Os leucócitos são os agentes mais importantes do sistema de defesa do corpo e as plaquetas fazem parte do sistema de coagulação. Esses componentes do sangue são renovados continuamente e a medula óssea é quem se encarrega dessa renovação. (1)
Células plasmáticas
As células plasmáticas fazem parte do sistema imunológico do corpo e, assim como as hemácias, os leucócitos e as plaquetas, são produzidas na medula óssea, sendo liberadas para a corrente sanguínea. Normalmente, as células plasmáticas constituem uma porção muito pequena (menos de 5%) das células da medula óssea.
Plasmocitoma
É um tumor benigno ou maligno formado pela proliferação de células plasmáticas (plasmócitos). O tumor benigno (plasmocitoma benigno) localiza-se habitualmente nas cavidades nasais, na faringe e na traquéea. Os plasmocitomas malignos, cuja forma habitual é o mieloma múltiplo, apresentam-se de formas múltiplas e afetam os ossos. (2) (3)
Compreendendo o Mieloma
Mieloma múltiplo é uma doença hematológica (do sangue) que se caracteriza pela proliferação descontrolada de células plasmáticas. A incidência da doença ocorre a partir da sétima década da vida, sendo rara antes dos 40 anos. Atinge, preferencialmente, o sexo masculino e os pacientes de raça negra.
Os portadores de mieloma têm uma produção aumentada de células plasmáticas e, portanto, um número aumentado dessas células na medula óssea, que pode variar de 10% a 90% - normalmente, as células plasmáticas constituem menos de 5% das células da medula óssea. Tais acúmulos de células plasmáticas são denominados plasmocitomas. O aumento das células plasmáticas pode acontecer na medula óssea (acúmulo intramedular) ou em outras localizações (acúmulo extramedular), portanto os pacientes com mieloma múltiplo podem apresentar plasmocitomas intra ou extramedulares. (3)
Sinais e Sintomas
Anemia, fadiga e dores ósseas constituem a tríade que sugere o diagnóstico de mieloma múltiplo, embora outros achados sugiram também a doença, como fraturas patológicas, hipercalcemia, insuficiência renal e proteinúria de Bence-Jones.
Dor óssea: um sintoma característico do mieloma múltiplo é a dor que não responde a tratamento analgésico.
Fraturas ósseas: as fraturas ósseas costumam ser patológicas, o que significa que podem ocorrer por pequenos traumas. A dor óssea e as fraturas são os primeiros sintomas do mieloma múltiplo.
Hipercalcemia: é uma alteração da bioquímica do sangue caracterizada pelo aumento dos níveis de cálcio na corrente sanguínea. Se não for controlada, pode causar outros efeitos colaterais como, por exemplo, insuficiência renal.(4)
Lesões osteolíticas: podem aparecer lesões ósseas disseminadas parecidas com a osteoporose, uma vez que as células plasmáticas ultrapassam 30% do valor normal. Essas lesões enfraquecem o osso, podendo provocar dor óssea e/ou fraturas patológicas.
Proteinúria de Bence-Jones: as células plasmáticas produzem anticorpos (imunoglobulinas) que fazem parte do sistema imunológico e que, na realidade, são proteínas. O aumento dessas proteínas pode ser detectado no sangue. As proteínas são denominadas proteínas M. Fragmentos dessas proteínas, denominadas proteínas de Bence-Jones, são evidenciados em exames de urina.
Muitos pacientes confirmam o diagnóstico de mieloma após a realização de exames de rotina de sangue e urina, nos quais são encontradas alterações mostrando níveis elevados de proteínas.
Alterações hematológicas: o aumento das células plasmáticas e do cálcio e o excesso de proteínas no sangue podem danificar os glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas, provocando anemia (diminuição de glóbulos vermelhos) e trombocitopenia (diminuição no número de plaquetas), o que pode causar sangramentos, e também alterando o sistema imunológico, predispondo o paciente à infecções.(5)
Com que médico devo me consultar?
O hematologista (ou onco-hematologista) é o médico especializado que atua nessa área da medicina assistindo diretamente ao paciente.
A hematologia trata doenças como anemias, leucopenias, hemofilia, leucemias agudas e crônicas, mieloma múltiplo e púrpuras, entre outras.
O hematologista é quem realiza as punções de mielograma e medula óssea, fazendo a análise das amostras, e atua em parceria com o oncologista, na definição do melhor tratamento do câncer. (3)
Diagnóstico
Os sinais e sintomas mais frequentes são dores ósseas que não respondem ao uso de medicamentos contra dor ou fraturas ósseas patológicas, isto é, que ocorrem com pequenos traumas, e alterações bioquímicas do sangue ou da urina. Para a confirmação do diagnóstico de mieloma, é necessário que pelo menos dois dos seguintes itens estejam presentes:
• Uma amostra de medula óssea com células plasmáticas acima de 10%.
• Radiografias de todo o esqueleto que mostram lesões líticas em pelo menos três ossos diferentes.
• Amostras de sangue ou urina com níveis anormalmente elevados de anticorpos (imunoglobinas) ou proteínas de Bence-Jones.
• Uma biópsia confirmando tumor de células plasmáticas (plasmocitoma) dentro ou fora do osso. (5)
Após ter sido confirmado o diagnóstico de mieloma, é importante avaliar o estágio da doença.
A extensão da doença é definida por 3 estágios diferentes – I, II ou III – que dependem do número de células de mieloma, dos níveis de proteínas monoclonais e de hemoglobina, da função renal e das lesões ósseas.
O estadiamento é muito importante, já que ajuda a definir o esquema terapêutico a ser utilizado e a prever o sucesso de diferentes esquemas de tratamento.
Tratamento
É muito importante que o paciente converse sempre com seu médico e esclareça todas suas dúvidas. O tratamento do mieloma visa alcançar os seguintes objetivos:
• Estabilização da doença por meio de condutas para evitar as alterações bioquímicas e do sistema imunológico.
• Alívio de sintomas tratando a doença como um todo.
• Remissão dos sintomas, reduzindo a velocidade de evolução da doença.
• Remissão completa e permanente da doença. (5)
A finalidade do tratamento é oferecer uma melhor qualidade de vida ao paciente.
Quimioterapia: utiliza medicamentos quimioterápicos, que são substâncias que impedem o crescimento das células do câncer. Por ser um tratamento sistêmico, ou seja, que atinge todos os órgãos do corpo, a quimioterapia costuma apresentar efeitos colaterais como náuseas e vômitos. Também pode ocorrer anemia, infecções e queda de cabelo, entretanto a maioria dos efeitos colaterais fica limitada ao tempo de duração da quimioterapia.
Radioterapia: é um tipo de tratamento que utiliza a radiação para inibir a capacidade de divisão das células anormais, evitando assim o crescimento do tumor. No mieloma múltiplo, a radioterapia é utilizada sobretudo para o tratamento de dores ósseas.
Interferon alfa: é uma substância produzida pelo próprio organismo que atua sobre as células do sistema imunológico. Uma das ações do interferon alfa é inibir a proliferação de plasmócitos. O interferon está indicado para pacientes em que a quimioterapia levou a uma remissão ou, pelo menos, a uma estabilização dos sintomas da doença. O tratamento com interferon tem por objetivo manter a remissão obtida com o tratamento quimioterápico.
Cirurgia: a cirurgia pode ser utilizada para diminuir ou retirar os tumores, reparar alterações ósseas e diminuir a dor.
Controle de sintomas: o controle de sintomas consiste na administração de drogas para controlar a hipercalcemia, a anemia, a dor e as infecções. O uso de medicamentos para o controle dos sintomas tem por objetivo melhorar a qualidade de vida do paciente.
Transplantes de medula óssea e transplante de células-tronco
Há dois tipos principais de transplante, que dependem da origem das células-tronco:
• Transplante de células-tronco de sangue periférico, no qual as células são retiradas do sangue em circulação.
• Transplante de medula óssea, no qual a medula óssea é usada como fonte das células-tronco.
Transplante de Medula Óssea
O transplante de medula óssea foi utilizado inicialmente como parte do tratamento da leucemia, certos tipos de linfoma e anemia. (4)
Quando se transplanta a medula óssea de um doador, o receptor deve ser compatível com o doador. Por esse motivo, os melhores doadores são sempre os familiares próximos do paciente.
Antes do transplante de medula óssea, o paciente que irá receber a medula doada deverá ter realizado quimioterapia e/ou radioterapia com o intuito de destruir as células encarregadas da defesa do organismo para não criar rejeição ao tecido que será transplantado. Esse procedimento, portanto, requer muito cuidado, já que o sistema imunológico é afetado e qualquer infecção pode ser perigosa.
Sob anestesia, retira-se medula óssea do osso ilíaco (bacia) do doador com uma seringa. Uma vez extraída, a medula óssea é injetada na veia do receptor. A medula óssea do doador chega até os ossos do receptor e as células transplantadas começam a se dividir. O resultado esperado é que a medula óssea do doador substitua a do receptor.
O transplante pode ser:
Alogênico: as células são recebidas de outra pessoa – um doador. Esse doador pode ser um familiar ou um não parente compatível com o receptor.
Autólogo: as células são colhidas do próprio paciente antes da quimioterapia e são transplantadas de volta para seu organismo.
A medula óssea transplantada demora de duas a três semanas para produzir glóbulos brancos suficientes para proteger o organismo contra as infecções. Por isso o cuidado contra infecções nesse período deve ser dobrado.
Efeitos colaterais do tratamento
Quimioterapia
Os efeitos colaterais do tratamento contra o câncer dependem essencialmente do tipo e da dosagem do medicamento. Por ser um tratamento sistêmico, os medicamentos utilizados atingem as células do câncer e também outras células que se dividem rapidamente:
• Células sanguíneas – Quando é administrado, o medicamento contra câncer pode afetar células sanguíneas saudáveis e, com isso, provocar a queda do sistema imunológico (glóbulos brancos), fazendo que o paciente fique mais susceptível a infecções, causar anemia (quando os glóbulos vermelhos são atingidos) ou ainda produzir alterações na coagulação do sangue ao atingir as plaquetas.
• Queda de cabelo – Os medicamentos anticancerígenos podem provocar queda de cabelo. O cabelo voltará a crescer, mas o novo cabelo poderá ter cor e textura diferentes.
• Células que revestem o aparelho digestivo – Os medicamentos contra câncer podem provocar falta de apetite, náuseas, vômitos e diarreia.
É muito importante que o paciente entre em contato com o médico se ocorrer qualquer um desses efeitos colaterais.
Radioterapia
Os efeitos secundários da radioterapia dependem da dose de radiação e do local do corpo onde foi administrada. Por exemplo, a pele da área tratada poderá ficar vermelha e seca, podendo até mesmo perder a sensibilidade. Nas últimas semanas de tratamento, o paciente pode sentir cansaço (fadiga), por isso o repouso é muito importante nesse período. Dentro do possível, porém, recomenda-se que o paciente mantenha-se ativo.
Transplante
Os pacientes que foram submetidos a transplante de medula óssea têm um risco maior de apresentar infecções, ter hemorragias e outros efeitos secundários por conta da baixa produção de células sanguíneas. Essa produção é afetada tanto pelo transplante como pela quimioterapia e pela radioterapia.
Em alguns casos de transplante envolvendo tecido de um doador, pode acontecer rejeição às células transplantadas. (3)
Conversando com seu médico
Manter uma relação aberta e de confiança com o médico é muito importante para todo o tratamento. Procure esclarecer todas suas dúvidas durante a consulta.(3) Essas são algumas sugestões de pergunta:
• O mieloma é uma doença grave?
• Qual o tratamento indicado para o meu caso? Existem outras opções?
• Posso precisar de transplante?
• Devo conversar com a minha família? Quem pode ser doador?
• Quanto tempo dura o tratamento?
• Quais são os objetivos do tratamento?
• Com que frequência serão realizadas as consultas?
• Quais as expectativas para a diminuição dos sintomas?
• O tratamento apresenta efeitos colaterais?
• Existe tratamento para os efeitos colaterais?
• Será necessário um tratamento de manutenção?
• Minha qualidade de vida será afetada? De que forma? O que posso fazer para amenizar isso?
• Com que outros profissionais eu posso contar?
Lembre-se: a informação é um direto seu.
E Depois do Tratamento?
O mieloma múltiplo é uma doença crônica que pode ser tratada e controlada por um longo tempo e não impede o paciente de levar uma vida normal, principalmente se o tratamento e o acompanhamento forem feitos da maneira correta. Com os novos avanços no tratamento, é possível que o paciente fique durante anos com a doença controlada.
Hoje em dia, o tratamento do câncer preconiza também a qualidade de vida do paciente e, por isso, conta com toda uma equipe de suporte multiprofissional especializada, formada por psico-oncologista, assistente social, nutricionista, dentista (estomatologista), fisioterapeuta, médicos especializados em medicina complementar etc.
Converse com seu médico e esclareça suas dúvidas. É muito importante você se manter informado sobre a doença e seu prognóstico, as opções terapêuticas e também sobre a qualidade de vida.
Referências Bibliográficas
1. Macmillan Cancer Support –www.cancerbackup.org.uk
2. National Cancer Institute – www.cancer.gov
3. Oncoguia – www.oncoguia.com.br
4. Kyle RA, Rajkumar SV. Multiple myeloma. N Engl J Med. 2004; 351(18):1860-1873.
5. ABRALE – Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia – www.abrale.org.br
Aviso
Publicado em 04/03/2010.
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